segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cena Do Anjo Que Invadiu Meu Quarto

Aconteceu em meados de 2008, quando eu tinha dor na garganta e olhar opaco. As urzes rosáceas do meu canteiro sonhavam, acalentadas pelo luar frio daquela noite. Eu riscava um pedaço de papel, pintando um gato preto no escuro, e a minha boca salgada de lágrimas tremia descontrolada. Eram pálidas as madrugadas daqueles dias. O inverno gritava, histérico, querendo morder as nossas carnes, mas lutei. Minha capa preta, que todo meu corpo cobria, cheirava absinto da noite passada, como se a embriaguez afastasse o eco lúgubre que me distraia.

Acho que passei mal de tantas dores, embora a madrugada não terminasse cedo. Pois bem, aquele mal continuava a gelar-me as vértebras com seu roçar, como garras que dilaceram. Confesso, perdi até o fôlego! Fiquei engasgado nas minhas próprias blasfêmias durante horas. Larguei o pedaço de papel no chão de carpete negro e lá ele ficou quase uma semana. Era um gato preto, com olhos de lamento repugnantes, que olhavam no fundo dos nossos olhos. Sua aparência enojou-me. Vomitei.

Fazia frio! E tudo era tão quieto lá fora que pude ouvir o bater de asas em minha janela: morcegos do parque dali do lado. Que quimera horrível eu vivi aquela noite! Os gritos da tempestade, as presas dos ratos no muro, a fome e a embriaguez... Talvez tudo fosse alucinação. Quem sabe ao certo? Talvez fosse, até hoje, a tontura do absinto daquela noite.

Mas naquela mesma noite, ainda lembro-me, houve mais a que contar. Quando, por um momento, cessaram-se as dores, senti um cheiro violentar meu olfato, queimando as pálidas narinas. Era tão forte que apertei os olhos numa careta. Não! Não que fosse um odor horrendo, apenas era tão incomum que me demorei a acostumar com ele. Lembrava perfume de dama da noite, porém ainda mais doce e mais atraente. Donde vinha tal essência? A questão rasgou meu cérebro em pedaços.

Naquele instante o frio passou. Como? Uma presença pairou em meu quarto. O Diabo? Não, era quente e brilhante. Olhou para mim como se já me conhecesse de outras vidas. Um anjo? Enfim, tinha cachos negros como a morte, cachos que espargiam pelas costas. A pele daquela criatura parecia estar molhada; era tão pálida e provia dum lume majestoso. Sim, só podia ser um anjo! As asas de pluma negra abriram-se e sua luz tornou-se forte feito estrela chamejante. Estremeci de pânico quando me dei por mim.

O anjo tinha calor no olhar, olhava-me com desejo de quem ama o amor eterno das almas acres ardentes. Não pude mover um músculo, aquela chama do olhar escravizou-me. Aquele ser divino, de aura verde, invadiu meu quarto, jogou abajures e lençóis pela janela, ateou fogo nas minhas cortinas limpas! Meu gato preto horrível virou cinzas para sempre, coitado.

E o que fiz eu? Deixei-me ser possuído. O anjo agarrou meus braços e pernas, não pude fugir ou me esconder. Os braços... A pele... O calor no olhar... Afoguei minha alma naquele amor! Meu cérebro rasgado girava, sei lá se pelo absinto ou pela loucura que é ficar acordado de madrugada. O cheiro da dama da noite me penetrava, queimando meus pulmões. O anjo era ela, a dama da noite! Desde então, minhas dores não voltam mais. Eu vivo por ela... E seu beijo de anjo...


FIM


Postado por Trovador

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